“Como se formam as pedras na vesícula?“

Uma pergunta frequente no dia-a-dia no consultório de quem trata de vesícula é: “Como se formam as pedras na vesícula?“, ou “porque tenho pedras na vesícula?“.

Para o médico, essa é uma resposta óbvia, afinal, vivemos isso todos os dias de nossas vidas profissionais, mas, para explicar para um leigo, a tarefa nem sempre é tão simples.

Pedras na Vesícula: Como se Formam? Como se Trata?

Antes de qualquer coisa, temos que ter em mente que a função da vesícula é armazenar a bile que o fígado produz. A produção diária de bile pelo fígado chega perto dos 2000 ml por dia e a capacidade de armazenamento da bile é cerca de 10 vezes menor. Isso quer dizer que essa bile toda não pode ficar estocada na vesícula.

A função da bile é ajudar na digestão e absorção das gorduras dos alimentos. Após passar pelo estômago, onde é triturado até formar uma pasta, o alimento vai para o intestino, cuja primeira parte chama-se duodeno. E é no duodeno que a bile deve ser misturada com os alimentos, para juntamente com o suco pancreático, fazer a digestão e absorção das gorduras. Uma boa parte da bile é então, liberada no duodeno, através do canal da bile, diminuindo o volume armazenado na vesícula.

A bile é composta de aproximadamente 90% de água, onde estão diluídos vários elementos, como colesterol, sais biliares e ácidos biliares, entre outros. E é ai que mora o problema. O colesterol, por ser uma gordura, não se mistura com a água. Todos nós já fizemos a mistura de água e óleo e vimos que ela não acontece. No nosso organismo, essa mistura tem que acontecer, caso contrário a bile não poderia chegar ao duodeno e cumprir seu papel. Ela tem que ser fluida como a água para poder passar pelo canal da bile até o duodeno.

Assim, o organismo usa “um truque” para que essa mistura aconteça. Ele envolve totalmente cada partícula de colesterol com sais e ácidos biliares, que conseguem se misturar com a água. Então, quando esses sais e ácidos biliares se misturarem com a água, eles levam junto o colesterol, deixando a bile fluida.

Sem entrar em detalhes técnicos, qualquer situação onde haja falta de sais biliares ou excesso de colesterol, essa mistura fica dificultada. O colesterol que “sobra” se misturar acaba precipitando, forma cristais que vão crescendo até serem identificados como pedras. Essa é a formação das pedras de colesterol, as mais comuns em ossos meio.

Se você pegar um copo de água e acrescentar sal e misturar, ele acaba se diluindo. Se continuar a por sal e misturar, vai chegar uma hora, que tem tanto sal, que essa mistura não mais ocorre, e acaba ficando no fundo do copo. É algo parecido com isso que acontece com o colesterol que não se mistura com a água.

E QUAL É O PROBLEMA COM AS PEDRAS?

E qual é o problema com as pedras?
As pedras dentro da vesícula dão o que chamamos de colecistite calculosa. Elas podem ser foco de infecção e causar uma colecistite aguda. Ou podem tentar sair da vesícula e ir para o canal da bile, causando um entupimento desse canal. Como a bile não pode escoar para o duodeno, ela pode voltar para cima para o fígado, dando o que se conhece por colangite, ou ir para o pâncreas, levando a pancreatite. Essas três complicações (colecistite aguda, colangite e pancreatite) são situações graves, com inúmeras consequências, inclusive óbito nas situações mais graves.

A única maneira de se evitar essas complicações é com a retirada da vesícula. Não adianta e nem pode retirar-se somente as pedras, pois elas se formarão novamente. A cirurgia hoje em dia é bastante corriqueira e de baixo risco (baixo risco não significa risco zero!). É realizada com 4 pequenas punções, ou mais modernamente, com apenas uma punção (single port). Pouca dor e rápida recuperação. Muito melhor operar e retirar logo a vesícula do que correr riscos de complicações graves.

E COMO SE VIVE DEPOIS DA CIRURGIA?

Vive-se normalmente. Algumas pessoas referem sintomas leves de má digestão ou diarreia por períodos variáveis de até 6 meses, enquanto o organismo se adapta. A imensa maioria se adapta rapidamente e não chegam a ter esses desconfortos. São raros os casos das pessoas que não se adaptam e necessitam tomar remédios para controlar os sintomas por tempos longos.

Ter pedras na vesícula não depende de você. Mas evitar as complicações só depende de você.

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